Vou contar essa porque foi cara.
A gente tinha um relatório mensal que a equipe levava quase dois dias pra montar por cliente. Juntar número de várias plataformas, colar em um modelo, escrever a leitura, revisar, enviar. Dois dias, todo mês, pra cada cliente.
Fiz o que qualquer pessoa com jeito pra sistema faz: automatizei. Liguei todas as APIs, montei a coleta, gerei os gráficos sozinho, deixei o documento saindo quase pronto. Dois dias viraram duas horas.
Fiquei muito satisfeito comigo mesmo por uns onze meses.
O que eu descobri quando fui perguntar
Numa conversa de renovação, um cliente contou, sem nenhuma maldade, que abria o relatório, olhava dois números e fechava.
Fui perguntar pros outros. A resposta foi quase toda igual. Ninguém lia. Ninguém tinha lido nunca. O relatório existia porque no primeiro mês de cada contrato alguém prometeu um relatório, e daí pra frente ninguém teve coragem de perguntar se ainda fazia sentido.
Eu tinha acelerado, com muita competência técnica, a produção de uma coisa que não deveria existir naquele formato.
A ordem certa das perguntas
O erro esteve na ordem das perguntas. A automação veio depois e só amplificou.
A ordem que eu segui foi: isso demora muito, como eu faço mais rápido?
A ordem certa é:
- Isso deveria existir? Se a resposta é não, apagar é a automação mais rentável que existe.
- Se deveria, é assim que deveria ser? Quase sempre não. O formato herdado quase nunca é o formato certo.
- Só depois: como isso roda sem uma pessoa empurrando?
Pular as duas primeiras é o erro clássico de quem gosta de construir. E eu gosto de construir, por isso caio nele com facilidade.
O que ficou no lugar
O relatório de vinte páginas morreu. No lugar entrou uma coisa muito menor:
- Um painel que o cliente abre quando quer, com os números sempre atualizados.
- Um aviso automático quando alguma métrica sai da faixa combinada, porque é aí que ele precisa mesmo saber.
- Uma conversa de trinta minutos por mês, com uma pessoa, sobre o que os números querem dizer e o que a gente vai fazer a seguir.
A parte que os clientes valorizam é a terceira, a única que eu não automatizei. As outras duas existem pra que a terceira possa acontecer com a cabeça livre.
O que eu levo daqui
Automatizar custa atenção, muito além do tempo de construção. Cada sistema que existe é um sistema pra manter, explicar pra quem entra e corrigir quando quebra. Montar um sistema pra sustentar uma coisa inútil é pagar duas vezes pelo mesmo erro.
Antes de perguntar como acelerar, vale sempre perguntar se aquilo deveria mesmo estar acontecendo.
Hoje, quando alguém me traz um processo pesado pra automatizar, a primeira coisa que eu faço é ir falar com quem recebe o resultado no fim. Com quem executa eu falo depois. É uma conversa de vinte minutos que já me poupou alguns meses de trabalho bem feito na direção errada.