Diogo Campos.
O que estou aprendendo27 ago 20262 min de leitura

Automatizei o processo errado e só percebi um ano depois

Montei um sistema bonito pra acelerar uma coisa que não deveria existir. A lição não foi sobre tecnologia. Foi sobre a ordem das perguntas.

Automatizei o processo errado e só percebi um ano depois
Em resumoAntes de automatizar qualquer processo, a ordem das perguntas é esta. Isso deveria existir? Se sim, é assim que deveria ser? Só depois, como isso roda sem uma pessoa empurrando? Eu pulei as duas primeiras, acelerei um relatório que ninguém lia e levei onze meses pra perceber.

Vou contar essa porque foi cara.

A gente tinha um relatório mensal que a equipe levava quase dois dias pra montar por cliente. Juntar número de várias plataformas, colar em um modelo, escrever a leitura, revisar, enviar. Dois dias, todo mês, pra cada cliente.

Fiz o que qualquer pessoa com jeito pra sistema faz: automatizei. Liguei todas as APIs, montei a coleta, gerei os gráficos sozinho, deixei o documento saindo quase pronto. Dois dias viraram duas horas.

Fiquei muito satisfeito comigo mesmo por uns onze meses.

O que eu descobri quando fui perguntar

Numa conversa de renovação, um cliente contou, sem nenhuma maldade, que abria o relatório, olhava dois números e fechava.

Fui perguntar pros outros. A resposta foi quase toda igual. Ninguém lia. Ninguém tinha lido nunca. O relatório existia porque no primeiro mês de cada contrato alguém prometeu um relatório, e daí pra frente ninguém teve coragem de perguntar se ainda fazia sentido.

Eu tinha acelerado, com muita competência técnica, a produção de uma coisa que não deveria existir naquele formato.

A ordem certa das perguntas

O erro esteve na ordem das perguntas. A automação veio depois e só amplificou.

A ordem que eu segui foi: isso demora muito, como eu faço mais rápido?

A ordem certa é:

  1. Isso deveria existir? Se a resposta é não, apagar é a automação mais rentável que existe.
  2. Se deveria, é assim que deveria ser? Quase sempre não. O formato herdado quase nunca é o formato certo.
  3. Só depois: como isso roda sem uma pessoa empurrando?

Pular as duas primeiras é o erro clássico de quem gosta de construir. E eu gosto de construir, por isso caio nele com facilidade.

O que ficou no lugar

O relatório de vinte páginas morreu. No lugar entrou uma coisa muito menor:

  • Um painel que o cliente abre quando quer, com os números sempre atualizados.
  • Um aviso automático quando alguma métrica sai da faixa combinada, porque é aí que ele precisa mesmo saber.
  • Uma conversa de trinta minutos por mês, com uma pessoa, sobre o que os números querem dizer e o que a gente vai fazer a seguir.

A parte que os clientes valorizam é a terceira, a única que eu não automatizei. As outras duas existem pra que a terceira possa acontecer com a cabeça livre.

O que eu levo daqui

Automatizar custa atenção, muito além do tempo de construção. Cada sistema que existe é um sistema pra manter, explicar pra quem entra e corrigir quando quebra. Montar um sistema pra sustentar uma coisa inútil é pagar duas vezes pelo mesmo erro.

Antes de perguntar como acelerar, vale sempre perguntar se aquilo deveria mesmo estar acontecendo.

Hoje, quando alguém me traz um processo pesado pra automatizar, a primeira coisa que eu faço é ir falar com quem recebe o resultado no fim. Com quem executa eu falo depois. É uma conversa de vinte minutos que já me poupou alguns meses de trabalho bem feito na direção errada.

A seguir

O teste que eu uso pra saber se um processo ainda deveria passar por mim

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