Há uns meses percebi que estava a aprovar artes às onze da noite. Não porque alguém tivesse pedido, mas porque tinha sido sempre assim. A arte ficava pronta, alguém me mandava, eu dizia sim ou não, e o trabalho seguia.
Parece inofensivo. Não é. Enquanto eu for o passo obrigatório entre uma coisa pronta e uma coisa entregue, a empresa anda à velocidade do meu telemóvel.
As três perguntas
Quando um processo aterra em cima de mim, faço três perguntas antes de aceitar continuar nele.
Primeira: isto precisa de mim ou precisa de um critério? Quase sempre precisa de um critério. Eu não estava a aprovar artes com um dom especial, estava a aplicar seis ou sete regras que nunca escrevi em lado nenhum. No momento em que escrevi as regras, deixei de ser preciso.
Segunda: o que acontece se eu demorar dois dias a responder? Se a resposta for "para tudo", encontrei um ponto de falha, não uma responsabilidade. Ponto de falha resolve-se com processo, não com mais disponibilidade minha.
Terceira: alguém vai aprender alguma coisa por eu estar aqui? Esta é a única que justifica ficar. Se a minha presença naquele passo forma alguém, é investimento. Se só desbloqueia, é gargalo.
Se falha duas das três, saio. E sair não é largar, é deixar montado.
Deixar montado custa mais do que fazer
A parte incómoda é esta. Aprovar uma arte demora dois minutos. Escrever o critério, dar exemplos do que passa e do que não passa, montar o sítio onde isso é registado e acompanhar as primeiras semanas até a equipa acertar a mão, demora um dia inteiro.
Toda a gente escolhe os dois minutos. Durante anos, eu também.
A conta só fecha quando se olha para o ano. Dois minutos, seis vezes por dia, cinco dias por semana, são mais de vinte e cinco horas por ano só naquele passo. E o pior nem é o tempo, é o custo de contexto: cada vez que entro naquilo, saio de outra coisa qualquer que só eu podia estar a fazer.
Onde a IA entra, e onde não entra
Está na moda dizer que a IA resolve isto. Resolve parte.
O que a IA faz bem é a parte repetitiva com critério claro: verificar se a peça tem os elementos obrigatórios, se o texto respeita o tom, se falta alguma informação. Isso hoje corre sozinho e devolve um sim, um não ou uma dúvida.
O que a IA não faz é ter o critério. O critério continua a ser meu, e a ser meu é bom. A diferença é que agora ele vive escrito num sítio, aplicado por uma máquina, em vez de viver na minha cabeça e ser aplicado às onze da noite.
A máquina executa. A cabeça continua a decidir. Confundir estas duas coisas é como se perdem empresas.
O que faço com isto na segunda-feira
Se estás no mesmo sítio, o passo prático é pequeno.
- Durante uma semana, aponta tudo o que passou por ti e não devia. Não julgues, só aponta.
- Ao fim da semana, passa a lista pelas três perguntas.
- Escolhe um processo. O que mais te interrompe, não o mais importante.
- Escreve o critério dele em texto simples, com dois exemplos do que passa e dois do que não passa.
- Entrega a alguém e aguenta as primeiras semanas de erros sem voltar a assumir.
O quinto ponto é onde quase toda a gente falha, eu incluído. A pessoa erra, dói ver, e nós voltamos a pegar. Se voltas a pegar, gastaste o dia da montagem e ficaste com o gargalo à mesma.