Diogo Campos.
Construindo por dentro20 ago 20263 min de leitura

O teste que eu uso pra saber se um processo ainda deveria passar por mim

Três perguntas que eu faço antes de aceitar continuar no meio de qualquer coisa. Se falha em duas, deixou de ser trabalho meu e virou dívida.

O teste que eu uso pra saber se um processo ainda deveria passar por mim
Em resumoUm processo só deveria continuar passando por mim se precisa de mim e não de um critério escrito, se a empresa não para quando eu demoro dois dias pra responder, e se alguém aprende alguma coisa por eu estar ali. Se falha em duas das três, eu escrevo o critério, entrego pra alguém e saio.

Uns meses atrás eu percebi que estava aprovando arte às onze da noite. Ninguém tinha me pedido. Sempre foi assim e ninguém, eu incluído, parou pra perguntar por quê. A arte ficava pronta, alguém me mandava, eu dizia sim ou não, e o trabalho seguia.

Parece inofensivo até você fazer a conta. Enquanto eu for o passo obrigatório entre uma coisa pronta e uma coisa entregue, a empresa anda na velocidade do meu celular.

As três perguntas

Quando um processo cai em cima de mim, eu faço três perguntas antes de aceitar continuar nele.

Primeira: isso precisa de mim ou precisa de um critério? Quase sempre precisa de um critério. Eu não estava aprovando arte com um dom especial. Estava aplicando seis ou sete regras que nunca escrevi em lugar nenhum. No momento em que escrevi as regras, deixei de ser necessário.

Segunda: o que acontece se eu demorar dois dias pra responder? Se a resposta for "para tudo", aquilo é um ponto de falha disfarçado de responsabilidade. Ponto de falha se resolve com processo. Mais disponibilidade minha só adia o problema.

Terceira: alguém vai aprender alguma coisa por eu estar ali? Essa é a única que justifica ficar. Se a minha presença naquele passo forma alguém, é investimento. Se só destrava, é gargalo.

Se falha em duas das três, eu saio. E sair significa deixar montado: critério escrito, exemplos, e alguém aplicando.

Deixar montado custa mais do que fazer

A parte incômoda é essa. Aprovar uma arte leva dois minutos. Escrever o critério, dar exemplos do que passa e do que não passa, montar o lugar onde isso fica registrado e acompanhar as primeiras semanas até a equipe pegar a mão, leva um dia inteiro.

Todo mundo escolhe os dois minutos. Durante anos, eu também escolhi.

A conta só fecha quando você olha pro ano. Dois minutos, seis vezes por dia, cinco dias por semana, dá mais de vinte e cinco horas por ano só naquele passo. E o pior nem é o tempo, é o custo de contexto: toda vez que eu entro naquilo, saio de alguma outra coisa que só eu podia estar fazendo.

Onde a IA entra, e onde não entra

Está na moda dizer que a IA resolve isso. Resolve uma parte.

O que a IA faz bem é a parte repetitiva com critério claro: verificar se a peça tem os elementos obrigatórios, se o texto respeita o tom, se falta alguma informação. Isso hoje roda sozinho e devolve um sim, um não ou uma dúvida.

O que a IA não faz é ter o critério. O critério continua sendo meu, e ser meu é bom. A diferença é que agora ele vive escrito num lugar, aplicado por uma máquina, em vez de viver na minha cabeça e ser aplicado às onze da noite.

A máquina executa. A cabeça continua decidindo. Confundir essas duas coisas é como se perdem empresas.

O que eu faço com isso na segunda feira

Se você está no mesmo lugar, o passo prático é pequeno.

  1. Durante uma semana, anote tudo que passou por você e não deveria. Sem julgar, só anotar.
  2. No fim da semana, passe a lista pelas três perguntas.
  3. Escolha um processo. O que mais te interrompe, mesmo que pareça pequeno.
  4. Escreva o critério dele em texto simples, com dois exemplos do que passa e dois do que não passa.
  5. Entregue pra alguém e aguente as primeiras semanas de erro sem voltar a assumir.

O quinto ponto é onde quase todo mundo falha, eu incluído. A pessoa erra, dói ver, e a gente volta a pegar. Se você volta a pegar, gastou o dia da montagem e ficou com o gargalo do mesmo jeito.

Vamos conversar?

Se a operação já dói e você quer tirar o processo manual do caminho, me escreve. Quem responde sou eu.

diogo@mediabraza.com
Diogo Campos · Porto e São Paulo RSS